Como vivem os moradores dos lugares com o maior número de centenários

Enquanto a ciência e a tecnologia quebram a cabeça na incessante luta para controlar o tempo e retardar o inevitável, cinco pequenas aldeias, sem sinal de wi-fi e longe de estarem em seus últimos dias, provam que velhos e bons costumes ainda são o melhor remédio para uma vida senão mais feliz, muito mais duradoura. Batizadas “blue zones” pelo astrofísico belga Michel Poulain e pelo médico italiano Gianni Pes, elas não são exatamente um “achado”, mas a redescoberta de hábitos que perdemos no meio do caminho entre a universidade e o sonho de conquistar o mundo. Não tem mistério, nem segredo, difícil mesmo é levar, na prática, a mesma vida dos vovôs e vovós azuis.

Durante 10 anos, em parceria com o jornalista americano Dan Buettner, a dupla de estudiosos acompanhou o dia a dia de moradores da província de Nuoro, na Sardenha; das ilhas de Icária, na Grécia, e Okinawa, no Japão; da península de Nicoya, na Costa Rica; e da vila de Lomo Linda, no sul da Califórnia. Em comum, elas apresentam uma taxa altíssima de centenários – 45% superior à média das nações mais longevas do mundo. E não é que eles vivem apenas mais, vivem muito melhor. A descoberta é a de que sua rotina é mais ou menos a que os nossos antepassados – quase os recolectores retratados no best-seller Sapiens: uma breve história da humanidade, de Yuval Noah Harari – tinham, e seguiam, sistematicamente.

Eles caminham, aram a terra e cuidam dos jardins, arrumam a casa, enfim, executam atividades que exigem um mínimo de movimento lento e constante. E todas as manhãs têm um ‘projeto’, como uma lista de afazeres. O que os okinawanos chamam de ‘ikigai’ e os nicoyanos de ‘plan de vida’.

Apenas por terem um motivo para acordar de manhã, já se tornam mais saudáveis, felizes e, de acordo com Gianni, especializado em geriatria, com sete anos de expectativa de vida extra. Outra: todos possuem ‘rituais’ antiestresse: na Sardenha, o happy hour é sagrado; a turma de Okinawa tira cochilos ao longo do dia e os adventistas de Loma Linda rezam – mais pelos outros do que por eles, sem distinção de cor, credo, raça ou religião. Claro que a alimentação é essencial para a saúde, mas não existe dieta calculada, restrição ou super food da moda: eles apenas comem pouco à noite e o suficiente durante o dia para se sentirem leves – já ouviram falar da regra 80? Parar de comer quando o estômago está a 80% de sua capacidade? É por aí… E no prato, muitos grãos e quase nada de carne – seja vermelha ou branca. E bebem vinho, lógico (mas nunca a sós).

Aliás, amizades são outro fator-chave para a longevidade deles, que mantém laços estreitos com vizinhos e familiares, levando a sério o senso de comunidade. E mais: não levam desaforo para casa, resolvem tudo no mesmo dia. Há até encontros para ‘brigas’ – em Okinawa, os mesmos velhinhos discutem a mesma questão há 40 anos e nunca chegam a um denominador comum. O Brasil tem potencial enorme para entrar no círculo de felicidade das blue zones, há cidades para isso e, mais ainda, há gente para isso – pessoas positivas e otimistas. Imaginem só se Alto Paraíso ou a região da Bocaina, até mesmo o Rio de Janeiro e aquelas estâncias hidrominerais em Minas Gerais não têm tudo para entrar na seleta lista?

Buettner tem exportado o estilo de vida para outras comunidades no mundo com o objetivo de criar novos cinturões azuis. O primeiro foi em Albert Lea, no Minnesota, e os resultados foram encorajadores. Desde 2009, a expectativa de vida na pequena cidade aumentou em três anos. A teoria é a mais simples possível e muito mais eficaz do que qualquer curso de mindfulness ou retiro de yoga já praticado na Terra, a questão é muito mais se queremos, de fato, abrir mão de antigos vícios de comportamento que nos dão bem-estar imediato e a ilusão de que estamos no caminho certo por apenas seguir os mesmos rastros de nossos amigos bem-sucedidos. A contar pela originalidade, simplicidade e falta absoluta de ambição capital dos moradores azuis, acredita-se que a fonte da juventude ainda seja a troca, a divisão, a soma e o diálogo. É desta água que sempre beberemos.

Paraíso na Riviera Turca, Kaplankaya é onde o empresário Burak Öymen e a mulher, a ex-modelo tcheca Tereza Maxová, recebem amigos e hóspedes da geração “JOMO” (Joy Of Missing Out) a cada verão. Além de ser uma super eco-villa e hotel, desde o ano passado o lugar é palco do ‘Harvest’, primeira conferência sobre bem-estar no Oriente Médio. Na primeira edição, em outubro passado, gurus e nomes-chave do wellness deram alguns caminhos para a nova era: técnicas de respiração, conversas sobre ancestralidade, meditações para a vida prática, alimentação – temas mais do que nunca necessários na pauta mundial. Em maio acontece a segunda edição do evento, mais uma rodada com três dias de imersão profunda no coração do Egeu turco. A propósito, o lugar é forte concorrente ao selo azul. Seus habitantes em suas rotinas anacrônicas fazem visitantes pensarem que todos ali nasceram há dez mil anos atrás. Nada mais sensível e apropriado que voltar à cena onde antigas civilizações sabiam que beleza e paz de espírito valem mais que os bitcoins somados pelo seu amigo londrino.

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